Qui, 24 de Abril de 2014

Nanã Buruquê - A Orixá primordial

altPara começarmos a falar de nossa querida Orixá Nanã Buruquê, permitam-me uma introdução:

 


Em um mito da cultura Yorubá, fala-se de um momento em que Deus (Olorum) manda Oxalá criar o ser humano. Oxalá começa a procurar de que material iria fazer este homem e esta mulher, e após várias tentativas decide pedir a ajuda a Nanã, a senhora do barro e da lama.

Esta então aceita ajudar Oxalá e empresta seu barro, mas impõe uma condição:
“Após um tempo na terra (aiê) os restos dos homens e mulheres deveriam voltar para seu domínio"
Oxalá aceitando a condição pega o barro e molda os seres humanos que com um sopro de Olorum (Deus) o barro ganha a vida.

 

 


Este mito é muito conhecido de muitos de vocês, não é verdade? Vocês já não ouviram esta história com outros personagens?
Pois é, no livro primeiro da Bíblia, o Gênesis, existe uma história muito semelhante:
No capítulo 2, versículo 7 da Gênesis: 
“E formou o SENHOR Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.”

Povos distintos, que viveram em épocas diferentes e em locais diferentes, mas que inspirados deram uma explicação muito semelhante à origem do homem.
Mas vejam como outra passagem também traz esta semelhança:

 

 

Gênesis capítulo 3, versículo 19
“No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás”

 


Contribuindo para todo este mistério que envolve este nosso Orixá, vamos adentrar em outra religião que, tal qual o cristianismo, influenciou a formação da nossa Umbanda: os Candomblés.


Se formos a uma casa de Candomblé de Ketu encontraremos a Orixá Nanã, e este Orixá será considerado de origem Jeje. Se formos para uma casa de nação Jeje encontraremos a Vodum (semelhante a Orixá para as nações Jeje) Nanã. Se formos em uma casa de nação bantu (Angola ou Congo) encontraremos músicas que fazem referência a Nanã toda vez que se fala da Inquice (semelhante a Orixá para as nações bantus) denominado Mameto Zumbá, e que tem as mesmas características e as mesmas atuações da Orixá Nanã.
E o mais curioso de tudo é que seja nos Jeje (Mahi ou Mina), seja entre os yorubás (ketu), seja na nação bantu, a saudação para esta divindade será sempre a mesma: “Saluba”.


Não é casual esta semelhança entre a tradição judaico-cristã, os yorubás, os jejês e os bantus. Esta semelhança demonstra a anterioridade desta Orixá, ou seja a sua antiguidade, de como veio primeiro. Por esta razão chamamos Nanã de avó dos Orixás.


Começamos assim a descrever Nanã para que todos possamos perceber como este Orixá é cercado de mistério, de importância e para que possamos perceber a abrangência de sua atuação.


Nanã é a responsável pela vida que conhecemos, seu barro primordial moldou a vida e continua a moldá-la todos os dias. Por isso, na Umbanda, a Orixá Nanã fornece a energia e a matéria necessárias para as materializações e desmaterializações. É a força divina que molda tudo dando-nos, além da vida, a saúde e também a oportunidade das reencarnações.


É da união da terra e da água que se possibilita a existência da vida vegetal. Afinal sem a água para irrigar os campos nada existiria. E sem a vida vegetal não teríamos outras formas de vida na Terra que conhecemos hoje.


Do pós vieste ao pó retornarás, ou seja, Nanã é a Orixá que acompanha a deterioração do corpo carnal, pois o corpo material voltará a pertencer a Nanã. Desta afirmação descobrimos a razão de muitos mitos trazerem Omolu como filho de Nanã, isto é, encontramos a explicação da proximidade entre Nanã e Omolu/Obaluaê.


Se foi de seu barro que foi moldado o homem e a mulher, é de seu barro (e assim leia-se de sua emanação) que poderemos encontrar as forças para reinventarmos nossas vidas, renascermos diante do sofrimento e dos traumas. As forças de Nanã auxiliam a todos um novo começo, nos dá um eterno poder de reinvenção. É a força divina que permite que tudo seja possível, pois é Nanã a essência de tudo que conhecemos, seja do ponto de vista da matéria astral, ou da matéria propriamente dita.


Representativamente é uma Orixá idosa, avó, e assim representa também a sabedoria e a experiência, desta forma é a Orixá que preside em nós a calma e a clareza de idéias, é quem nos dá o discernimento.


Nanã, da mesma forma que Omolu/Obaluaê e que Iansã, tem estreita ligação com a morte, o que dá a esta Orixá um papel relevante na condução e trato com as almas, e logicamente com toda a Umbanda.


Por ter esta representação, e pelas suas características, as energias emanadas de Nanã Buruquê são muito trabalhadas e utilizadas pelos pretos-velhos. E por ser uma Orixá que preside a formação da matéria fornece esta energia aos Exus e as Pombagiras.


No sincretismo religioso exigido e imposto pelo senhor aos escravos, os nossos ancestrais optaram por relacionar Nanã a Sant’Ana, ou seja a mãe de Maria. Pois tal como este santo da Igreja Católica, Nanã é a Mãe primordial, a que veio antes, a que preparou o terreno para os seus filhos. Ou seja, Sant’Ana veio antes e preparou Maria para que esta recebesse Jesus.


Senhora de todas as águas paradas, das águas profundas, dos pântanos e dos manguezais. São nestes sítios da natureza que podemos entrar em contato com esta Orixá, além de podermos pedir suas forças diante dos rios e mares.
 
A saudação é Saluba, ou Saluba Nanã, cujo significado é “nos refugiamos em Nanã”.


A comida ritualística, usada para oferendas e trabalhos em nossa casa é o purê de batata-doce-roxa, uvas roxas, lima da pérsia, milho branco cozido coberto com mel e com fatias de coco, além do acaçá (bolinho feito com fubá branco).


Sua cor é o roxo (em muitos locais o lilás).

Saravá a primordial, a essência, saravá Nanã, permita que nos refugiemos em tuas forças, Saluba Nanã

 

Escrito por Pai Caetano de Oxossi



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